O EQUÍVOCO
AUTOR – João Uchôa Cavalcanti Netto
EDITORA – Editora Rio
Segunda edição.
- Nome. Teu nome. Vamos, o nome, para que eu veja qual dos processos é o teu.
Ao ouvir essa frase você pode achar que se trata de uma nova gíria popular vinda de um filme nacional, um desses que fala sobre bandido, favela, polícia e tudo o que já estamos acostumados. Bem, poderia ser, mas acaba sendo o primeiro conto do livro O EQUÍVOCO de João Uchoa Cavalcante Netto. Neste livro os contos são recheados com a verdade nua e, sempre, crua. Crimes, como tantos outros, que ocorrem no nosso dia a dia como moradores da cidade do Rio de janeiro. Neste livro estão presentes todos os personagens perturbadores urbanos: favelados, corruptos, política e políticos, família, sangue, tiros e morte. Se estivéssemos nos anos 70, poderíamos estar narrando um livro de Nelson Rodrigues, mas hoje esses ingredientes podem ser encontrados nos jornais, tanto televisivos quanto nos de papel, esse que mesmo na era digital continuam a existir e persistir nas bancas de jornal. O que todos esses meios transmitem é que basta lançar um olhar qualquer sobre o cotidiano para se deparar com a sangrenta vida real. João Uchôa Netto sabia onde queria chegar, com o que estava mexendo ao escrever essa série de contos, que poderiam ser chamados de: Perturbadores, realistas ou a ironia da vida real? É complicado se definir o que ao passar dos anos foi sendo imposto para cada cidadão, não só brasileiro, mas cidadão ocupante de um mundo que vive uma guerra urbana e universal. Sim, falo da violência que a cada dia saí dos estatus de guerra em países como o Iraque e se torna um item na vida urbana mundial.
As experiências de João Uchôa em retratar a violência no cotidiano vêm do trabalho no jornalismo, como repórter policial, passando pela área criminal como escrevente e Juiz, onde Uchôa coordenou em uma época todos os presídios da cidade do Rio de janeiro. Com esse amontoado de profissões João Uchôa pode ver ao vivo a violência se instalar e ser a personagem principal na vida de várias pessoas e famílias. Além da violência outro fator fez com que as pessoas e a loucura se instalassem. Segundo o autor, não foi fácil ser juiz na época em que: Beatles, bossa-nova, a pílula, guerra fria, ditadura, Vietnã, Rede Globo, terrorismo, hippies, libertação da mulher, viva o homossexualismo! Rock and roll, euforia, delinqüência juvenil, Marx, tropicália, contestação, AIDS e etc estavam acontecendo. Tudo, melhor dizendo, quase tudo junto perturbando uma sociedade em transição. Como forma de libertação da loucura vista diariamente e válvula de escape para tudo isso O EQUÍVOCO foi concebido. Anos se passaram desde a primeira edição do livro e hoje, logo após o tão idealizado e utópico ano 2000, ter passado, estamos vivendo igual ou um pouco pior aos contos do livro. É algo como o livro 1984, concebido em 1948, onde na Inglaterra a sociedade era constantemente vigiada, manipulada e politicamente presa pelo Big Brother. Como no livro de George Orwell ou no de João Uchôa Cavalcante Netto a vida imitou a arte.
Vivemos em uma época em que dizer a verdade, falar palavrão e mostrar a violência é considerado um ato normal. Afinal estamos em um país que o filme nacional mais visto do ano foi pirateado, tem o conteúdo violento e a frase – “Pede pra sair 01!” - É a mais nova gíria ouvida em faculdades, escolar e bares (de todas as classes sociais). A violência ou a popularização dela fez isto com a sociedade. Permite que todos tratem a violência como um produto comercial e permite a qualquer grupo social falar sobre o tema, como se fosse um PHD no assunto.
O que deixa qualquer um que lê o Livro de João Uchôa Netto perplexo não é a violência - pelo menos foi o meu caso - quantidade de injustiça, seja ela social ou moral, mas a perplexidade de se passar trinta anos desde sua primeira publicação e o livro se manter mais atual que nunca. Em um dos contos o pai assume um crime pelo filho. Impressa massacra o pobre pai, um menino, morto, de quinze anos é tido como herói. Pessoas gritam o nome da vítima e o réu confirma o crime, da detalhes e mais detalhes de como premeditou o ato e foi até o fim. No final, como o início da história mostrava, o pai, só tentava proteger o filho. Mas essa proteção da violência, proteção da realidade ou qualquer forma de proteção se tornou cada vez mais vaga ou fraca. Na sociedade em que vivemos hoje não temos pais assumindo culpa pelos filhos, mas temos filhos que planejam e executam as mortes de seus pais. Temos uma imprensa que fez o mesmo sensacionalismo tido no livro, em um caso completamente perturbador. Sim, falo do caso Suzane Von Histofen. Esse acredito, foi o divisor de águas sobre a violência no país. Violência essa que o livro de João Uchôa me fez lembrar, me perturbar e, acima de tudo, me questionar. A violência não esta só na favela, na casa de pessoas pobres ou com pessoas que não tem mesmo um só centavo no bolso. A violência esta no condomínio de luxo, no advogado formado, no poder público, nos homens da lei. A miséria que todos culpavam antigamente ser a causa da violência, hoje ganha outro nome: Ganância, liberdade e falta de senso da realidade. Como só tenho vinte e dois anos não sei dizer onde as coisas começaram a mudar no nosso país e no mundo em que vivo. Não sei quem foi o real culpado ou se todos são culpados. Só sei que me preocupa muito quando um livro feito há trinta anos atrás retrata uma violência e hoje, aos poucos, começamos a superar e piorar em todos os sentidos.

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